Juventude
(este é um post antigo semi-reformulado, introdutório ao próximo post)
as pessoas quando crescem ficam chatas.
uma criança na fase de transição para um adulto, então, é a pessoa mais chata do mundo. (leia-se: adolescente).
eu não tenho paciência com adolescentes.
porque quando se é criança, não se tem vergonha de nada, não se tem regras, não se tem hipocrisia, não se faz as coisas só na intenção de agradar aos outros. não se segue política ou etiqueta, tudo é descontraído, tudo é diversão, tudo é desfrute.
quando essa criança começa a entrar na adolescência, vira a coisa mais enfadonha. não é mais alguém que usa qualquer roupa, rola no chão, ri alto e com vontade, se lambuza toda pra comer, não tem medo de ser feliz.
adolescente é a pessoa mais chata de se conversar, porque ou tem vergonha de falar em certos assuntos por medo de ser julgada, ou então só fala futilidades.
não é mais alguém que, quando você encontra, você pega nos braços, levanta no ar e roda, faz cosquinha, brinca de caretas e outras coisas bobas, e se diverte horrores. agora ela tem vergonha. vergonha de os mais velhos a reprovarem, ou de os seus amiguinhos da mesma idade acharem que ela é muito infantil.
tudo isso porque tudo o que querem é serem adultos. serem vistos como adultos. então não podem fazer coisas de criança ou falar de assuntos infantis. e além do mais, adolescentes são meio falsos; adotam uma postura afetada, que dá pra perceber quando estão forçando o riso, tentando chamar a atenção ou fazendo doce. não tem coisa mais ridícula, por exemplo, do que reparar que uma menina está a fim de um menino mas não quer dar o braço a torcer, e fica provocando e ao mesmo tempo fazendo joguinhos toscos para se fazer de difícil.
eles passam a se preocupar com modas e com aparência, coisa que na infãncia jamais se preocupariam; cria um monte de pudores e uma pseudo-opinião formada.
isso nos primeiros anos, porque em grande parte das vezes, mais tarde o processo se inverte. eles passam a odiar tudo o que está na moda, procuram quebrar todas as regras e convenções sociais, e gostam de dizer que não ligam para a aparência ou para o que os outros pensam deles, mas paradoxalmente usam a suposta falta de cuidado com a aparência para chamar a atenção e se auto-afirmar. resumindo: a fase do rebelde-sem-causa.
nesse estágio, quando em bando, são perigosos: fazem o maior estardalhaço, se vestem e se penteiam de forma estranha, usam códigos de comunicação, criam intrigas entre si, praticam bullying nos excluídos e falam mal dos outros pelas costas. mas quando isolados ou em reuniões sociais ou de família, são apenas enfadonhos. apáticos, depressivos e deprimentes. dão sempre a impressão de querer estar em qualquer lugar, menos ali.
ah, bom mesmo é ser jovem ! jovem não é mais aborrescente, mas também ainda não é totalmente adulto (que, por sinal, tem a mesma raiz da palavra adulterar). o jovem já tem um monte de responsabilidades, mas ainda não casou ou teve filhos. não precisa mais ficar sonhando em chegar logo à maioridade para poder dirigir, beber e entrar em lugares proibidos; mas ainda tem muita agilidade, resistência física e disposição, e ainda não se queixa de dores nas juntas.
o jovem já não tem tanto tempo disponível, mas quando tem, aproveita-o bem. faz coisas úteis como trabalhar, estudar e resolver seus próprios problemas, sem precisar da aprovação e assistência dos pais em período integral. quando entra de férias, pega o carro ou a mochila e vai viajar, seja sozinho ou com os amigos.
o jovem já não tem mais tantas neuras e crises de identidade quanto o adolescente, tem mais relacionamentos de verdade e menos decepções amorosas superficiais. às vezes se pega sentindo saudades da infância e dos "bons tempos de colégio", mas tem consciência do quanto amadureceu daquele tempo para cá e sabe que tem o poder de ainda realizar muitas coisas boas na vida.
quando alguém se torna jovem, pára de andar a ermo, indo para onde o vento levar, e passa a trilhar um caminho traçado por si próprio. aprende que existem milhões de caminhos possíveis, com milhões de resultados diferentes, e já tem experiência suficiente, ainda que teórica, para pesar todas essas possibilidades e escolher uma delas, ou ir testando até acertar.
o jovem consciente tem a cabeça nas nuvens e os pés no chão. e só ele consegue reunir essas duas coisas em uma.
quando você se torna jovem, volta a rolar no chão, fazer montinho, brincar de gato mia, soprar bolinhas de sabão, fazer guerra de travesseiro, cantar músicas da sua época de infância, dar risada alto e comer tudo o que tem vontade, de danoninho a papinha de nenê, sem medo de ser taxado de "infantil"... e tem orgulho de andar de mãos dadas na rua com sua mãe ou avó.
você já não pertence a mais nenhuma tribo: ouve qualquer música, usa qualquer roupa e aprendeu a não julgar os outros por estereótipos. tem suas preferências, claro, mas já transcendeu os preconceitos.
o jovem tem a mente aberta para aprender tanto com os adultos e idosos quanto com as crianças e adolescentes. dá valor às coisas simples da vida e não faz questão de provar nada para ninguém.
ele faz amigos onde quer que seja, sem distinção de idade: trata tanto os mais velhos como os mais jovens de igual para igual, ensina aos mais novos sem ser autoritário e não necessita de auto-afirmação.
se antes era louco para terminar a escola, agora não tem pressa de terminar a faculdade. cada ano passa voando e ele tenta aproveitar ao máximo.
o jovem geralmente morre de saudade do seu passado, mas isso não o impede de curtir e muito o seu presente.
...ou, pelo menos, era assim que deveria ser, com todas as pessoas que saem da adolescência.
aliás, para mim, quem ainda não tem essas características todas que eu descrevi, não passa de um adolescente em busca de uma identidade.
porque adolescência é uma fase de transição. pessoas inseguras, para mim, ainda não saíram da adolescência.
já a juventude, para mim, é simplesmente sinônimo de "maturidade desprovida de velhice".
"A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha nas brincadeiras de quando era criança".- Friedrich Nietzche
1 ninguém mais vai comentar?:
excelente esse texto seu.
embora este explique melhor, tenho a sensação que o primeiro foi escrito com mais paixão.
fico aguardando o próximo.
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