segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Aborrescência

Minha aborrescência começou relativamente tarde. Lá pelos 13 anos, que foi quando dei meu primeiro beijo, depois comecei a sair sozinha com as amigas (sendo que aos 11 eu não atravessava nem a rua sozinha), mudei na oitava série do colégio público para um particular, e pude presenciar como é e vivenciar a vida dos alunos dessa faixa etária num colégio de filhinhos de papai. ou seja: igualzinha à dos seriados americanos.

A classe se divide entre:
1. os playboys ou patricinhas/mauricinhos
2. os nerds
3. os alternativos esquisitinhos/roqueiros
4. os excluídos

Tanto os nerds como os alternativos podem ser excluídos, mas os boyzinhos JAMAIS serão, NUNCA serão. Tem também os pops, ou a elite, grupo formado pelos filhos das coordenadoras e diretoras, pelos alternativos engraçadinhos que adoram chamar a atenção, pelas garotas riquinhas que dão BAILES com traje Esporte Fino em todos os aniversários e também aqueles amigos que estudam no mesmo colégio desde o jardim-de-infância. Mas os pops nunca são nerds. Ou seja, a Elite é uma panelinha de alunos que são famosinhos em todas as unidades do colégio, e que adoram praticar bullying nos excluídos.

Bom, eu era alternativa AND nerd. Adivinha no que deu ? Isso mesmo, Clube das Excluídas.

Nem preciso narrar a minha aborrescência traumática, né ? O que importa é que minha suposta infância não terminou aos 11 anos, quando eu parei de brincar de Barbie, e sim aos 13, quando eu parei de imaginar como seria meu primeiro beijo e de sonhar com o príncipe encantado.

Mas, paradoxalmente, as infantilidades estavam apenas começando. Porque não tem coisa mais infantil e patética do que uma criança em corpo de "mocinha" achando que sabe pensar e agir como gente grande.

O problema do adolescente é que ele PENSA que é um ser humano íntegro e com a opinião formada, nem que a sua única opinião seja dizer que prefere ser uma metamorfose ambulante.

Os adolescentes gostam de se achar donos do mundo. Se acham completos, perfeitos, como se não tivessem mais nada para aprender na vida; adoram dizer que "eu sou mais eu" e se julgam "pessoas de personalidade forte". Acreditam que quem fala mal deles é porque os inveja, mas também adoram falar mal dos outros. Se acham os donos da verdade, às vezes rebeldes e revolucionários, e o pior de tudo: se acham adultos.

Mas se tem uma coisa que eles não são, é alguém íntegro, pleno e completo.
Eles não entendem que, nessa idade, em meio a transformações psicológicas e fisiológicas desnecessárias de serem citadas, eles estão em mudança constante e ininterrupta. Adolescentes são um rio de inconstância, um fluxo de disparates, e do começo ao fim da adolescência cumpre-se um ciclo de transformações. Esse ciclo corresponde ao processo de Busca Por Uma Identidade. Porque nem mesmo personalidade eles têm de forma definida. E enquanto não chegam de fato ao fim dessa Busca, eles não saem da Aborrescência.

Você já reparou como adolescentes têm vergonha de tudo ? E como são, ao mesmo tempo, revoltados ? Têm vergonha de falar em público, de cantar no videokê, de subir num palco quando chamadas. Mas postam dezenas de fotos ególatras no fotolog e fazem vídeos com conteúdo quase obsceno.

Na verdade tudo isso se resume em uma coisa: afetação. Afetação significa fingir ser quem você não é. Quer dizer que eles querem chamar a atenção, mas também querem parecer adultos. As meninas, especialmente, agem de forma diferente quando estão na presença de outras pessoas. Quando estão com as amigas, por exemplo, são divertidas e escandalosas, e vivem falando de meninos. Quando tem meninos por perto, elas riem mais, mesmo que não estejam achando tanta graça assim, andam como se estivessem numa passarela, fingem ficar nervosinhas com as provocações deles, mas é tudo um pretexto para se aproximar e interagir com eles, por mais que não tenham nenhum interesse. Quando estão entre adultos e sem amigos por perto, são apenas serenas (eu diria enfadonhas), parecem estar extremamente entediadas, e também tentam parecer adultas, a fim de serem vistas de igual para igual. Já quando estão na balada fingem dançar, mas tudo o que fazem é mexer os pézinhos para lá e para cá, e olhar para os lados que nem psicas procurando conhecidos para fazer social ou pessoas bonitas para xavecarem-na (porque elas mesmas nunca xavecam. Afinal, mulher tem que se fazer de difícil).

As patricinhas, geralmente, são as mais afetadas. As nerds e excluídas são as mais envergonhadas, e as alternativas são as mais revoltadas e liberais. (Mas muitas dessas últimas, na verdade, são patricinhas enrustidas. Afinal, em vez de usar um tênis furado e um trapo amarrado como saia, usam um Converse original e uma saia de pregas da Opera Rock. E estudam num colégio particular, claro.) Mas tanto o afetamento como a vergonha, a revolta e o liberalismo (nossa, parece papo de sociologia) fazem parte da afetação adolescente. Resumindo: tudo isso uma hora vai passar. TEM que passar.

Deixa eu continuar no próximo capítulo, que aí vou falar do self-owned ;)

2 ninguém mais vai comentar?:

da disse...

querida,

onde vc leu sobre bullying?? e afetaçao?

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